Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

As Fontes

Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,
beijavam só as velas da montanha.
 
 
Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia
 
 
Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-me nesse momento claridade.
 
 
Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.
 
 
Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando, as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas…
 
 
Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de Sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascida.
 
 
( Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai os que perderam a coragem
de reclamar a sua conta de água!
Ai a mágoa
que lhes era hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)
 
Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo…
 
Mas, a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha…
 
 
GAMA, Sebastião da, “Cabo Da Boa Esperança”, 3ª Edição, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 
publicado por canecaspartidas às 23:31
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