Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Elegia Segunda

Todos os pássaros, todos os pássaros
asas abriam, erguiam cantos,
de Amor cantavam.
 
Todos os homens, todos os homens,
de almas aberta, do olhos erguidos,
de amor cantavam.
 
De Amor cantavam todos os rios,
todas as serras, todas as flores,
todos os bichos, todas as árvores,
todos os pássaros, todos os pássaros,
todos os homens, todos os homens.
 
De Amor cantavam…
 

GAMA, Sebastião da; “Campo Aberto “; 4º edição

publicado por canecaspartidas às 23:39
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Pátria

Serra!
E qualquer coisa dentro de mim se acalma…
Qualquer coisa profunda e dolorida,
Traída,
Feita de terra
E alma.
 
Uma paz de falcão na sua altura
A medir as fronteiras:
- Sob a garra dos pés a fraga dura,
E o bico a picar estrelas verdadeiras.
 
TORGA, Miguel, Diário II, 1943
publicado por canecaspartidas às 23:35
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As Fontes

Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,
beijavam só as velas da montanha.
 
 
Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia
 
 
Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-me nesse momento claridade.
 
 
Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.
 
 
Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando, as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas…
 
 
Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de Sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascida.
 
 
( Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai os que perderam a coragem
de reclamar a sua conta de água!
Ai a mágoa
que lhes era hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)
 
Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo…
 
Mas, a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha…
 
 
GAMA, Sebastião da, “Cabo Da Boa Esperança”, 3ª Edição, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 
publicado por canecaspartidas às 23:31
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Comunhão

Tal como o camponês, que canta a semear
A terra,
Ou como tu, pastor, que cantas a bordar
A serra
De brancura,
Assim eu canto, sem me ouvir cantar,
Livre e à minha altura.
 
Semear trigo e apascentar as ovelhas
É oficiar à vida
Numa missa campal.
Mas como sobra desse ritual
Uma leve e gratuita melodia,
Junto o meu canto de homem natural
Ao grande coro dessa poesia.
 
TORGA, Miguel, Cântico do Homem, 1950
publicado por canecaspartidas às 21:44
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Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Rio sem Fim

 

O que procuro neste tempo incerto 

Multicolor e também negro?

Talvez um rio infinito

Com águas caudalosas

E margens de árvores frondosas,

Onde as tardes sejam calmas

E me levem até ao campo dos

girassóis,

Afagar morenos caracóis,

Deixar a minha alma no rio

E atingir mirífico porto.

 


Odivelas, 7 de Maio de 1996



INFANTE, José; “Caminhos Percorridos”; Março 2004; Quilate, LDA

publicado por canecaspartidas às 22:38
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