Domingo, 30 de Março de 2008

O guardador de rebanhos

III
 
Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.
 
Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas coisas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos…
 
Por isso ele nunca tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros…
 
Alberto Caeiro, in Poemas, Ed. Ática
publicado por canecaspartidas às 15:36
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Sábado, 29 de Março de 2008

Homenagem à nossa vila...

A NOSSA CANTIGA


Caneças dos aguadeiros

E das lindas lavadeiras,

Nós já fomos os primeiros

Cá nas nossas brincadeiras!


Caneças, os teus viveiros

Com os hortos, à mistura,

Mostram-nos lindos canteiros

trabalhados, com ternura!


Caneças, tuas cantigas

São cantadas com amor,

Como quando as raparigas

Vão colher uma flor!


Caneças, sempre a viver

Uma fonte, em cada canto,

Continuas a crescer

Nunca perdes o encanto!


Caneças, linda e ladina,

Como tu não há igual,

És antiga, mas menina

Cá no nosso Portugal!




Rosa da Soledade Couto

publicado por canecaspartidas às 13:55
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Quarta-feira, 26 de Março de 2008

O guardador de rebanhos

II

 

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O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo  a cada momento
É  aquilo que nunca antes tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 


Creio no mundo como no malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

( Pensar é estar doente dos olhos )

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


 

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...




Alberto Caeiro, in Poemas, Ed. Ática



publicado por canecaspartidas às 17:00
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Terça-feira, 18 de Março de 2008

O guardador de rebanhos

IX

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor
Me sinto triste de gozá-lo tanto,
E me deito ao comprido na erva,
E fecho os olhos quentes,
Sinto todo o meu corpo deitado na realidade,
Sei a verdade e sou feliz.


Alberto Caeiro, in Poemas, Ed. Ática
publicado por canecaspartidas às 10:15
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Sexta-feira, 7 de Março de 2008

O guardador de rebanhos

 XIV

 

Não me importo com as rimas. Raras vezes

Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra.

Penso e escrevo como as flores têm cor

Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me

Porque me falta a simplicidade divina

De ser todo só o meu exterior.

 

Olho e comovo-me,

Comovo-me como a água corre quando o chão é inclinado,

E a minha poesia é natural como o levantar-se o vento…

 

CAEIRO, Alberto, in Poemas, Ed. Ática

publicado por canecaspartidas às 21:53
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Quarta-feira, 5 de Março de 2008

Setentrional

Talvez já te esquecesses, ó bonina,
Que viveste no campo só comigo,
Que te osculei a boca purpurina,
E que fui o teu sol e o teu abrigo.

Que fugiste comigo da Babel,
Mulher como não há nem na Circássia,
Que bebemos, nós dois, do mesmo fel,
E regámos com prantos uma acácia.

Talvez já te não lembres com desgosto
Daquelas brancas noites de mistério,
Em que a lua sorria no teu rosto
E nas lajes que estão no cemitério.

Quando, à brisa outoniça, como um manto,
Os teus cabelos de âmbar, desmanchados,
Se prendiam nas folhas dum acanto,
Ou nos bicos agrestes dos silvados,

E eu ia desprendê-los, como um pajem
Que a cauda solevasse aos teus vestidos;
E ouvia murmurar à doce aragem
Uns delírios de amor, entristecidos;

Quando eu via, invejoso, mas sem queixas,
Pousarem borboletas doudejantes
Nas tuas formosíssimas madeixas,
Daquela cor das messes lourejantes,

E no pomar, nós dois, ombro com ombro,
Caminhávamos sós e de mãos dadas,
Beijando os nossos rostos sem assombro,
E colorindo as faces desbotadas;

Quando ao nascer da aurora, unidos ambos
Num amor grande como um mar sem praias,
Ouvíamos os meigos ditirambos,
Que os rouxinóis teciam nas olaias,

E, afastados da aldeia e dos casais,
Eu contigo, abraçado como as heras,
Escondidos nas ondas dos trigais,
Devolvia-te os beijos que me deras;

Quando, se havia lama no caminho,
Eu te levava ao colo sobre a greda,
E o teu corpo nevado como arminho
Pesava menos que um papel de seda...

E foste sepultar-te, ó serafim,
No claustro das Fiéis emparedadas,
Escondeste o teu rosto de marfim
No véu negro das freiras resignadas.

E eu passo, tão calado como a Morte,
Nesta velha cidade tão sombria,
Chorando aflitamente a minha sorte
E prelibando o cálix da agonia.

E, tristíssima Helena, com verdade,
Se pudera na terra achar suplícios,
Eu também me faria gordo frade
E cobriria a carne de cilícios.


Porto, Diários da Tarde, 14 de Fevereiro de 1874
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publicado por canecaspartidas às 21:29
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Domingo, 2 de Março de 2008

Em Lisboa com Cesário Verde

Nesta cidade, onde agora me sinto

mais estrangeiro do que os gatos persas;

nesta Lisboa, onde mansos e lisos

os dias passam a ver as gaivotas,

e a cor dos jacarandás floridos

se mistura à do Tejo, em flor também,

só o Cesário vem ao meu encontro,

me faz companhia, quando de rua

em rua procuro em rumor distante

de passos ou aves, nem eu sei já bem.

Só ele ajusta a luz feliz dos seus

versos aos olhos ardidos que são

os meus agora; só ele traz a sombra

dum verão muito antigo, com corvetas

lentas ainda no rio, e a música,

o sumo do sol a escorrer da boca,

ó minha infância, meu jardim fechado,

ó meu poeta, talvez fosse contigo

que aprendi a pesar sílaba a sílaba

cada palavra, essas que tu levaste

quase sempre, como poucos mais,

á suprema perfeição de língua.


ANDRADE, Eugénio de; Poesia e Prosa, II volume (1986).

publicado por canecaspartidas às 00:32
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