Quarta-feira, 26 de Março de 2008

O guardador de rebanhos

II

 

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O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo  a cada momento
É  aquilo que nunca antes tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 


Creio no mundo como no malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele

( Pensar é estar doente dos olhos )

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...


 

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...




Alberto Caeiro, in Poemas, Ed. Ática



publicado por canecaspartidas às 17:00
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