Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Paraíso Perdido

Não sabem mais que brincar.

Balir uns balidos leves.

Sugar as tetas da Mãe.

Dar marradinhas sem mal,

por não terem outro modo

de contar que são alegres.

 

E o Tempo finge que dorme,

enquanto saltam na relva...

Têm presos ao pescoço

chocalhos que são brinquedos.

Ai que lindos os cabritos!

Que naturais e perfeitos!

Vejam lá de que se serve nossa Madre Natureza

pra mostrar como era tudo

se não fosse a macieira!

 

GAMA,Sebastião da, Itinerário Paralelo, Volume V

publicado por canecaspartidas às 11:16
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Quatro Mil Soldados

Ra ta plã ta plã

quatro mil soldados

vão mecanizados

pela estrada fora.

 

Sereninha a hora,

manhã linda, linda,

mas os quatro mil

marcham indiferentes.

 

Ra ta plã ta plã,

que bonito é!

mas à volta há flores

e nenhum as vê.

 

Passam andorinha,

dizem-lhes recados.

de olhos encantados,

passam raparigas.

 

Ondas lhes acenam.

Melros e pardais

fazem-lhes sinais

pela estrada fora.

 

Mas os quatro mil

vão mecanizados.

Passos acertados

pelo rataplã;

 

Os ouvidos dados

são ao rataplã;

olhos cegos, cegos,

coração entregue

 

só ao rataplã

(Ra ta plã ta plã

Ra ta plã ta plã

Ra ta plã ta plã ).

 

Que monotonia!

Que enfadonha letra!

Entretanto os melros

trinam de alegria.

 

Trinam, trinam, troçam.

- Quatro mil soldados,

todos combinados,

negam a manhã!

 

Ra ta plã ta plã

Ra ta plã ta plã

Ra ta plã ta plã

Ra ta plã ta plã

  

GAMA, Sebastião da, “ Campo Aberto “, 4ª edição

publicado por canecaspartidas às 09:58
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Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Elegia Segunda

Todos os pássaros, todos os pássaros
asas abriam, erguiam cantos,
de Amor cantavam.
 
Todos os homens, todos os homens,
de almas aberta, do olhos erguidos,
de amor cantavam.
 
De Amor cantavam todos os rios,
todas as serras, todas as flores,
todos os bichos, todas as árvores,
todos os pássaros, todos os pássaros,
todos os homens, todos os homens.
 
De Amor cantavam…
 

GAMA, Sebastião da; “Campo Aberto “; 4º edição

publicado por canecaspartidas às 23:39
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As Fontes

Havia fontes na montanha.
Mas estavam fechadas.
Ignoradas,
beijavam só as velas da montanha.
 
 
Ora um dia
não sei que vento passou
que me ensinou
aquelas fontes que havia
 
 
Eu tinha mãos e mocidade;
só não sabia pra quê.
Fez-me nesse momento claridade.
 
 
Rasguei o ventre dos montes
e fiz correr as fontes
à vontade.
 
 
Então
veio quem tinha sede e quem não tinha.
De todas as aldeias
vieram, cantando, as moças
encher as bilhas.
E eu fui também cantando ao som das águas…
 
 
Cantava as minhas mãos, cantava as fontes.
Era um canto jucundo,
cheio de Sol.
Mas a meio da nota mais alegre
muita vez uma lágrima nascida.
 
 
( Ai quantos, quantos,
minha canção tornava mais conscientes
da sua melancolia
sem remédio!
Ai os que perderam a coragem
de reclamar a sua conta de água!
Ai a mágoa
que lhes era hino!
Ai o insulto desumano
à sua melancolia!)
 
Era a meio do canto que surgia
seu travo amargo…
 
Mas, a meu lado, as águas
iam matando a sede de quem vinha…
 
 
GAMA, Sebastião da, “Cabo Da Boa Esperança”, 3ª Edição, Colecção Poesia, Edições Ática, Lisboa 
publicado por canecaspartidas às 23:31
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