Segunda-feira, 3 de Dezembro de 2007

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,

Era a carne das árvores elástica e dura,

Eram as gostas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento

Era o livre e luminoso chamamento

De asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o sol poisa,

Era o peso e era a cor de cada coisa,

A sua quietude, secretamente viva,

E a sua exaltação afirmativa.

Era  a verdade e a força do mar largo,

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra poética, Poesia, Editorial CAMINHO, 6ª Edição

publicado por canecaspartidas às 18:03
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Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz nas ruas,

Ó vida suja, hóstil, inutilmente gasta,

Saber que existe mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes, e não vejo

Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes.

Noites sem nome, do tempo desligadas,

Solidão mais pura do que o fogo e a água,

Silêncio altíssimo e brilhante.

As imagens vivem e vão cantando libertadas

E no secreto murmurar de cada instante

Colhia a absolvição de toda a mágoa.

Cidade suja, restos de vozes e ruídos,

Rua triste à luz do candeeiro

Que nem a própria noite resgatou.

(...)

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra poética, Poesia, Editorial CAMINHO, 6ª Edição 

publicado por canecaspartidas às 17:50
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Campo

Estou só nos campo

A doce noite murmura

A lua me ilumina

Corre em meu coração um rio de frescura

De tudo o que sonhou minha alma se aproxima.

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, Obra Poética, Livro Sexto, Editorial CAMINHO, 8ª Edição, Revista

publicado por canecaspartidas às 17:38
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